Bilhões e bilhões: Quantas estrelas vemos no céu noturno?
Como a ciência evoluiu na observação do espaço e contagem
Sergio Luiz Araujo Vieira é doutor em Física, professor dos Cursos de Engenharia do Centro Universitário Ibmec-BH
Quem nunca se encantou com a visão do céu noturno e toda a miríade de estrelas que podemos ver? Este encantamento com certeza foi uma das molas propulsoras de todo o desenvolvimento que a humanidade tem vivido.
Quantas estrelas podemos ver no céu noturno, sem Lua e longe das luzes da cidade? Centenas, milhares, milhões? Os habitantes da Grécia antiga, tentaram contar estes pontos luminosos no céu noturno e os ligaram para ilustrar sua mitologia. Neste processo nos legaram 48 constelações (atualmente temos 88 constelações) que são usadas até hoje para mapear o céu.
Bright Star Catalog
Na verdade, você não precisa se dar ao trabalho de contar as estrelas no céu noturno, pois alguém já contou o número de estrelas que podemos ver.
A astrônoma Dorrit Hoffleit (1907 – 2007) da universidade de Yale compilou o Yale Bright Star Catalog, no qual está tabulada cada estrela visível da Terra limitada à capacidade de observação do olho humano. O total chega a 9096 estrelas visíveis ao longo de todo o céu noturno (os dois hemisférios). Como apenas um hemisfério é visível por vez, vemos aproximadamente a metade deste total. Ela limitou seu catálogo a estrelas com um brilho igual a 6.5 magnitudes, que é o limite aproximado para observação pelo olho humano.
O que é a magnitude de uma estrela?
A medida do brilho de uma estrela segue uma escala inversa, quanto maior a magnitude menor o brilho. Esta classificação foi feita pelo astrônomo grego Hiparco (século II antes de Cristo) que classificou as estrelas de acordo com seu brilho agrupando todas as estrelas que conseguia ver a olho nu em seis categorias de brilho, que ele chamou de grandezas.
O nome grandeza se deveu ao fato de se acreditar que todas as estrelas estavam a mesma distância da Terra em uma esfera fixa. Desta forma as estrelas mais brilhantes seriam maiores (primeira grandeza), as estrelas um pouco menos brilhantes (segunda grandeza) consequentemente um pouco menores e assim sucessivamente até o limite que se podia observar (sexta grandeza).
Atualmente em astronomia se usa o termo magnitude, que é uma escala mais rigorosa que a proposta por Hiparco. Ela considera a resposta do olho humano a estímulos luminosos, que não é linear. Esta escala é logarítmica e a cada magnitude de diferença o brilho fica 2,5 vezes maior (uma estrela de magnitude 1 é 2,5 vezes mais brilhante que uma de magnitude 2). Para se ter uma noção da variação de brilho, o Sol possui magnitude -26 e a Lua cheia -12.
Se quisermos ver mais estrelas, teremos de procurar pelas mais fracas, pois existem muito mais estrelas mais fracas que magnitude 6,5. Para se ter uma ideia, o uso de um simples binóculo de 50 mm aumenta o limite para magnitude 9 e o número de estrelas visíveis sobe para 217000; se for usado um pequeno telescópio de 80 mm, o número de estrelas a para 5.3 milhões.
Carl Sagan
Este número, apesar de grande, é insignificante perto do total de estrelas no universo observável. Somente em nossa galáxia, a Via Láctea, existem por volta de 300 bilhões de estrelas.
O astrofísico Carl Sagan, que ficou famoso por sua série “Cosmos” e pelos vários livros de divulgação cientifica, teve uma expressão a ele atribuída na tentativa de expressar uma quantidade grande: bilhões e bilhões.
Um dia em que você tenha a oportunidade de ir para o interior (um sítio ou hotel fazenda, por exemplo) e se coincidir com uma noite de céu sem Lua, certamente haverá neste céu um número muito grande de estrelas. Tente contá-las.